A Graphic MSP tem sido o grande destaque dos quadrinhos nacionais desde que criou vida, em 2012, com Astronauta - Magnetar. E com esta primeira publicação já tivemos um otimista vislumbre do que se trataria este selo: ambiciosas releituras dos clássicos personagens da Turma da Mônica e cia. E - apesar de eu ter minhas reservas quanto à Magnetar - o nível de qualidade esperado foi atingido em grande parte destas publicações até o momento.
E a Turma da Mata possuía tanto potencial quanto as outras turmas e personagens do Maurício; mas pela conjugação acima, já dei a entender que este potencial não foi explorado como deveria, não é? Então vamos lá.
A releitura
Em Turma da Mata - Muralha, Jotalhão e seus amigos são colocados em um cenário de fantasia com pegada steampunk, onde a tecnologia deu um grande salto com a descoberta do calerium, um mineral que esquenta quando submergido. Assim, com as máquinas à vapor e monopólio da única mina de calerium, o reino de Leonino I se torna a grande potência da época. Mas o poder sob à cabeça do regente, que se torna tirano, escravizando e marginalizando aqueles que se recusam a aceitá-lo; e estes, liderados pelo lendário guerreiro Elefante Verde, formam a Turma da Mata!
Muralha traz os bons elementos da Turma da Mata original, na essência de seus personagens e no toque político, que sempre foi um diferencial. E dá um salto além, criando um universo completamente novo e instigante para servir de lar da Turma.
Os pontos negativos
E logo após o novo universo estabelecido, começam os problemas. A Graphic traz sim algo de novo, mas o faz somente de maneira superficial.
Temos um cenário político interessante, mas comum. O que não seria um problema se não fosse tão pouco aprofundado, servindo estritamente pro significado mais raso do termo: a paisagem de fundo onde ocorrem as aventuras.
Os personagens foram construídos de forma competente, mas pouco escapam de seu conceito-base, e não são desenvolvidas nem apresentadas facetas diferentes, mais interessantes, ou mesmo verdadeiramente conflitantes. A relação entre eles acaba rasa, simplória.
O foco na aventura tornou todos os outros aspectos da Graphic menores. É uma incrível revisão dos personagens, num mundo de fantasia, com um bela arte. Mas os elementos da história são mostrados de uma mesma forma: nos entregam tudo pronto.
O que quero dizer com isso é que, os elementos que poderiam ser os mais interessantes da HQ, o plot do reino corrupto e os conflitos entre os personagens, já nos são entregues tão encaminhados, à beira da solução, que não há sensação alguma de desenvolvimento.
A exemplo, a instigante trama do rei tirano se limita ao prelúdio, pois Leonino II não mais agia como seu pai; e a conturbada relação entre Coelho Caolho e Jotalhão se resolve de maneira tão simples que fica a impressão de que Caolho estava só fazendo manha, pra deixar claro pro amigo que ele ficou com raivinha de suas ações... de uns vinte atrás.
E apesar de ter parecido, não culpo a aventura. Ingá e Vida também tiveram uma intenção bem parecida com Muralha, de recontar um dos universos do Maurício com uma aventura de fantasia. E o fizeram muito bem, pois a dosagem de aventura e trama - o plot, a construção e utilização dos personagens e suas relações, os conflitos - foi quase perfeita, ou mesmo perfeita, pro caso de Ingá. Já aqui, aventura é o único elemento que tem espaço bem aproveitado, e todo o resto recebe pequenas pinceladas de importância. Talvez por conta da tentativa de desenvolver tantas relações entre personagens, em tão poucas páginas.
Mesmo na parte técnica, há algumas escolhas fracas narrativamente. Como o Lendário Guerreiro Elefante Verde, que se resume no prólogo a repetitivos olhares raivosos.
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| Depois da segunda vez eu já tinha entendido que ele tava puto... mas teve a terceira. |
Ou em uma sequência posterior de três páginas, onde cada uma retrata um momento diferente - mas próximos - sem nenhuma transição, e a única quebra fica sendo o virar da página. Até ler o balão ou mesmo os quadros seguintes, não se sabe em que ponto do tempo em relação à página anterior se encontra a nova cena. E isto acontece mais de uma vez durante a HQ.
São detalhes, sim, mas que machucam bastante o ritmo da leitura.
Concluindo...
Turma da Mata - Muralha inova, dando o conhecido passo além das Graphic MSP, mas numa escala ainda maior que seus antecessores, ao não somente tomar uma abordagem mais realista e/ou séria e aventuresca, e sim reinventar completamente o conceito da Turma da Mata, sem abandonar as características que tornam as histórias originais tão interessantes.
Infelizmente, o roteiro não foi competente o suficiente para dar vida a esta abordagem usufruindo de todo o potencial que ela possuía, nos dando assim um trabalho até frustrante, por conta do tanto que era esperado dele a partir das previews.
E se posso deixar um adendo, por mais que eu tenha as adorado e não consiga imaginar como fazer um reinvenção mais interessante destes personagens - visual e conceitualmente - sou obrigado a admitir que esta arte do Greg Tocchini (artista que inicialmente daria vida a esta HQ) me faz desejar ver o quão mais incrível seria a parte artística de Muralha não tivesse ele saído do projeto.
Inclusive esta imagem daria uma capa/pôster/quadro/qualquercoisa MUITO FODA!




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