Dizem que a melhor coisa a
se fazer em momentos de crise é parar e reavaliar a situação, rever as escolhas
que te levaram até ali, revisitar o passado em busca de respostas. Quem me
conhece sabe que eu sou um reclamão, então a primeira coisa que fiz quando
recebi um e-mail da Panini informando o lançamento do título Chico Bento Moço
foi choramingar no twitter sobre como mesmo para uma revista sobre um garoto da
roça era desnecessário o nome ser tão caipira. De qualquer forma, quando vi o
título em uma banca aproveitei a oportunidade para voltar no tempo. E que
viagem!
Crítica:
Aprendi a ler com a turma do
Maurício de Sousa e, vivendo no interior, sempre me identifiquei muito com
Chico Bento. Claro que em minha cabeça eu era o Cebolinha da rua (e o Jean era
o Cascão), mas o dedão constantemente esfolado por andar descalço, as
tentativas de fazer casa em árvore, as frutas colhidas no pé e o chocolate com
leite quente da teta da vaca (seguido pela dor de barriga) claramente evidenciavam as
semelhanças com o menino simples da fazenda. As histórias do Chico tem grande
influência em diversos aspectos da minha vida, inclusive os medos. Jamais
esqueço da vez em que, em visita ao primo Zeca na cidade grande, o menino
prendeu a bota na escada rolante e causou o maior transtorno no shopping. Até
hoje não sei usar escada rolante direito...
Chico Bento Moço tem esse
clima gostoso de nostalgia que me fez lembrar de toda a infância e rever vários
momentos de escolha. Na história, que diferentemente dos quadrinhos antigos
provavelmente seguirá uma linha do tempo “reta”, acompanhamos o último mês de
Chico na Vila Abobrinha antes de partir para a faculdade de agronomia. Como o
mais realista – e, como diz o próprio Maurício, pé no chão – dos títulos da
turminha, tudo que há de direito nessa fase está presente: aquela saudade
antecipada de tudo que vai deixar de fazer com frequência, sejam banhos no
riacho ou um simples café depois do jantar com a família, uns amigos se mudando
para correr atrás dos sonhos enquanto outros permanecem na cidade com ambições
mais próximas, o pai que se faz de forte mas vive inventando desculpas para
você ficar mais um pouquinho e a mãe que provavelmente sofre mais do que todo
mundo mas se mantém forte, dando todo apoio, carinho e comida do mundo. Entre o
período da aprovação e o dia da viagem para a nova cidade, onde vai morar em
uma república com o primo, Chico passa por momentos singelos e emocionantes ao
se despedir de cada um dos personagens que fizeram sua infância ser tão
especial. Cada encontro – com o Zé Lelé, a vó Dita, o nhô Lau, a professora Marocas – traz consigo uma carga grande de sentimentos e deixa aqueles que como
eu sentem que o garoto é um de seus grandes amigos de infância com um baita nó
na garganta. A cena em que um personagem especial aparece para se despedir e
dizer para Chico nunca se esquecer de suas origens e inocência é o ponto mais
alto da história e uma ode a todos os fãs.
Como não podia deixar de
ser, um dos maiores dramas da mudança é a separação – pela distância – de seu
grande amor, Rosinha, e é quando se despedem que Chico, que até então
continuava o garoto educado e grato que sempre fora, mostra o quanto
amadureceu. Confesso que apesar de a revista toda ter me deixado emocionado, o
final me deu arrepios!
Chico Bento Moço é
para todos os públicos (Minha irmã de 10 anos e minha
mãe também leram e adoraram.) e mesmo custando R$7,50 vale cada centavo, seja para conhecer os rumos que o jovem vai tomar ou somente matar as saudades. Não acredito
que as próximas edições vão manter a pegada da primeira, mas certamente vai ser
legal acompanhar, ao menos mais um pouco, um personagem com o qual a gente pode
relacionar e ver onde os desafios de Francisco Bento para arrumar emprego,
estudar e manter o namoro à distância na cidade grande vão leva-lo.
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