Nunca havia lido nada de
Surpreendentes X-Men. Em parte por conta da enorme dificuldade de se completar
ou assinar coleções morando no interior, em parte por conta de um preconceito
com a arte de John Cassaday. Com a chegada do segundo volume da Coleção Oficial
de Graphic Novels da Editora Salvat, que inverteu a ordem de lançamento da
coletânea original (O segundo volume da versão gringa foi o arco lendário de Os
Fabulosos X-Men, Fênix Negra.), me vi obrigado a consumir o título. E fico
feliz por tê-lo feito, quase dez anos depois, porque foi bom ver como meu eu
adolescente não poderia estar mais errado.
Crítica:
Confesso que graças à minha
visão errônea do trabalho de Cassaday demorei um pouco para ler. Não gostei da capa e mandei a expressão que diz para
não julgar o livro por ela para escanteio por uns dias. Também tive a
prepotência de assumir que Joss Whedon, respeitadíssimo e bem sucedido roteirista, diretor e produtor de cinema e televisão, além de co-autor de um dos meus filmes favoritos de todos
os tempos – Toy Story – e diretor de dois dos melhores episódios de The Office,
não faria algo bom em X-Men e quebraria o encanto.
Logo na introdução, antes
mesmo de começar a história, me senti satisfeito ao ver que a trama começava justamente
do ponto onde abandonei a leitura, após a saga do Vírus Legado, seguindo o
retorno de Lince Negra,
a gênio dos computadores (e jailbait)
Kitty Pryde, à equipe reformulada dos X-Men. Assim como O Espetacular Homem-Aranha: De Volta Ao Lar,
Superdotados parte de um momento de separação. A equipe de mutantes se dividiu
em duas e Ciclope, junto da “ex-vilã” e agora namorada Emma Frost, se tornou o
líder de facto da equipe principal,
que também conta com Fera e o recém-convocado Wolverine. Como de costume a
opinião pública está contra os mutunas, então Scott quer dar um “golpe de
publicidade” para melhorar a imagem do grupo, surpreender a todos e... uau! Não
é que a máxima “tudo que Joss Whedon toca é ouro” (patente pendente) é verdadeira?
Em uma fluidez absurda somos levados de uma discussão sobre uniformes até uma
tentativa de organizar o funcionamento da equipe em missões de resgate que
podem chegar aos noticiários e tocar a sociedade. Nossos heróis só não contavam
com a primeira aparição do vilão Ord,
um alienígena cujos planos não revelados (Motivo de gozação por parte do Fera.)
incluem a destruição de todos os mutantes, algo que convenientemente acontece
quando é anunciada uma cura para o gene mutante.
Whedon trabalha aspectos
modernos como manipulação de mídia e conscientização de massas o tempo todo,
mostrando como a comunidade mutante, sempre rechaçada pelo próximo mesmo após
salvar o mundo diversas vezes, reage diante de uma notícia que a poria em par
de igualdade com aqueles que tanto a temem. Enquanto o X-Man honorário Lockheed
põe Ord pra correr, Dr. Hank McCoy vai atrás de uma velha colega para descobrir
mais sobre a tal cura mutante. A não aceitação de seu lado bestial, já tendo
sido um homem de aparência normal, é um tema recorrente na construção de
personalidade do Dr. McCoy, e nessa edição é interessante ver como Logan, que é
o extremo oposto do Fera – um homem comum que se entrega ao seu lado animal, –
age com maturidade e responsabilidade (Ou seja, socando impiedosamente.) quando
o companheiro de equipe oscila.
Abro um parêntese aqui para
comentar também como minha opinião sobre Cassaday mudou. Não era fã de seu
traço mais realista e quadrado por ser amante da velha escola de personagens
com corpo de boneco, mas, com exceção das capas, gostei de tudo que ele fez
aqui. Profundidade, jogo de sombras e até as expressões mais cartunescas nas
reações das personagens se encaixam perfeitamente e agregam muito ao roteiro.
Ao descobrirem algo muito
mais sinistro por trás da cura mutante – que por sinal é comparada em alguns
momentos com cura para homossexualidade, um assunto tão recente que também foi
utilizado de forma alegórica em X-Men: First Class – os filhos do átomo invadem
o laboratório de pesquisas, onde enfrentam Ord novamente, enquanto Kitty é
forçada à enfrentar algo totalmente inesperado. Whedon nunca escondeu que se inspirou
na personagem para a criação de Buffy e em seu período na Marvel prestou grande
serviço a ela, tornando o desenvolvimento da maturidade da garota é um dos
pontos-chave da trama e o que o mantém o roteiro amarrado. Um personagem
querido retorna do mundo dos mortos (O que seria uma grande surpresa se o verso
do livro não tivesse sua imagem estampada.) e quase resolve sozinho e de forma contundente
a luta contra Ord.
Nesse momento mais uma vez o
toque de Whedon se fez presente. A S.H.I.E.L.D., mostrando que nem tudo em
história em quadrinhos é preto e branco (Conforme seria apresentado também em
Os Vingadores anos mais tarde.), interrompe a pancadaria informando que os
ocorridos não passam de uma manobra diplomática da S.W.O.R.D. (O governo e seus
acrônimos...), portanto os X-Men não podem fazer nada. Exceto Wolverine, que
com duas palavras (Cannonball Special!)
põe tudo abaixo. Algumas discussões sobre a filosofia e importância de cada
membro, a alegria pela volta do companheiro caído e, como em De Volta Ao Lar,
um final com um baita teaser para a
próxima edição encerram a história.
Superdotados não
mexeu comigo como a história do Homem-Aranha, mas vale muito a pena por ser
extremamente divertida – todos os heróis tem sensos de humor que se
complementam – e contar com um roteiro fora de série que, conforme citado
anteriormente, trata de questões tão atuais e desenvolve personagens de maneira
única, colocando um pouco de cinza na eterna e interminável luta do bem contra o mal.
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